Sobre rupturas, os caminhos que se encerram e aquilo que permanece de nossa própria história.
Há acontecimentos que mudam o rumo de uma história.
Alguns resultam de nossas escolhas. Outros nos atravessam sem que os tenhamos escolhido, e talvez nunca cheguemos a compreender por que aconteceram.
Quando algo se rompe, podemos olhar para o que veio depois e concluir que aquela perda foi necessária para que outros caminhos se abrissem.
Mas talvez não possamos saber.
Uma perda pode continuar sendo uma perda. Um caminho pode realmente ter terminado. E reconhecer aquilo que surgiu depois não significa atribuir à dor o mérito pelo que nos tornamos.
Existe, porém, uma diferença entre o que nos aconteceu e o que fazemos com o que permaneceu.
As heranças de nossa própria história
Em Fausto, Goethe escreve:
“Aquilo que herdaste de teus pais, conquista-o para fazê-lo teu.”
A passagem, também retomada por Freud em Totem e tabu, sugere que receber uma herança não equivale necessariamente a torná-la nossa. Há algo a ser elaborado nessa transmissão.
Costumamos associar a herança ao que recebemos de outras pessoas: bens, histórias, valores e expectativas. Mas existe outra dimensão dessa questão.
Também herdamos aquilo que fomos.
Carregamos consequências de escolhas anteriores, projetos interrompidos, relações que terminaram e expectativas que um dia construímos sobre o futuro. Há desejos que não se realizaram e experiências que jamais teríamos escolhido viver.
O passado não permanece apenas nas lembranças. Ele pode continuar produzindo efeitos em nossas decisões, em nossos vínculos e na maneira como nos reconhecemos.
Entretanto, aquilo que vivemos não determina por si só todas as possibilidades de nossa existência.
Uma experiência pode continuar fazendo parte de nossa história sem ocupar para sempre o mesmo lugar nela. Essa mudança nem sempre é perceptível enquanto vivemos seus efeitos. Às vezes, é somente com o passar do tempo que conseguimos reconhecer outra maneira de nos relacionarmos com o que aconteceu.
O que permanece depois da ruptura
Quando uma relação termina, um projeto deixa de existir ou uma certeza perde seu sentido, nem sempre conseguimos compreender o alcance daquela mudança.
Há perdas que exigem tempo para serem elaboradas. Em Luto e melancolia, Freud descreve o trabalho do luto como um processo no qual os investimentos afetivos ligados ao que foi perdido não se desfazem imediatamente.
Não basta saber que algo terminou para que seus efeitos deixem de existir.
Por vezes, continuamos ligados a experiências que já não fazem parte de nossa vida presente. Em outros momentos, acontecimentos antigos passam a adquirir significados diferentes daqueles que lhes atribuíamos.
Isso não significa apagar o passado ou transformar toda experiência dolorosa em aprendizado.
Há acontecimentos que permanecem sem explicação satisfatória. Há perdas que não encontram compensação. E não precisamos convertê-las em acontecimentos necessários para reconhecer que a vida continuou depois delas.
A questão não é encontrar uma justificativa para aquilo que nos feriu, mas reconhecer que nossa história não se reduz ao que nos aconteceu.
Os caminhos que não estavam previstos
Costumamos imaginar o futuro a partir das possibilidades que conseguimos reconhecer no presente.
Fazemos planos, estabelecemos objetivos e construímos expectativas sobre o que desejamos viver. Entretanto, nem todos os caminhos seguem a direção que imaginávamos.
Alguns se encerram. Outros são abandonados. E há aqueles que começam a se formar sem que percebamos.
Uma leitura desperta uma pergunta. Uma pergunta nos aproxima de novos interesses. Um encontro modifica a maneira como compreendemos determinada experiência. Aos poucos, aquilo que antes parecia ocupar o centro de nossa existência pode deixar espaço para outras possibilidades.
Mas seria precipitado concluir que essas possibilidades já estavam contidas nas rupturas que as antecederam.
Ao olhar retrospectivamente para nossa história, estabelecemos relações entre acontecimentos que, quando ocorreram, não apresentavam ligação evidente.
Construímos narrativas sobre nosso percurso. Reconhecemos mudanças, identificamos decisões importantes e procuramos compreender como chegamos até aqui.
Contudo, a coerência que encontramos ao olhar para trás não significa que tudo estivesse previamente determinado.
Reconhecer aquilo que surgiu depois de uma perda não exige acreditar que precisávamos passar por ela.
Alguma autoria possível
A psicanálise nos convida a interrogar a ideia de que somos inteiramente senhores de nossa própria história.
Nem sempre conhecemos aquilo que nos move. Nossos desejos, escolhas e repetições não se explicam exclusivamente pelas intenções que reconhecemos conscientemente. Há determinações inconscientes que participam da maneira como nos relacionamos com os outros, com nossa história e com aquilo que desejamos.
Isso também significa que não podemos simplesmente decidir, por um ato de vontade, qual significado determinada experiência terá para nós.
Ainda assim, nossa relação com o passado pode se modificar.
Uma lembrança pode adquirir outro significado. Uma convicção pode ser questionada. Podemos encontrar palavras para experiências que antes não conseguíamos nomear.
O acontecimento não muda, mas a posição que ocupamos diante dele pode se transformar.
Talvez seja justamente nessa diferença que possamos situar alguma autoria possível.
Não se trata de afirmar que o sujeito pode se libertar inteiramente de suas determinações, mas de reconhecer que sua relação com a própria história não precisa permanecer idêntica. Aquilo que se repete pode ser interrogado. O que parecia evidente pode perder sua certeza. E certas posições que sustentávamos podem deixar de ser as únicas possíveis.
Essa transformação não é garantida, tampouco depende apenas de uma decisão consciente. Pensar uma autoria possível é, portanto, reconhecer uma margem de elaboração e de escolha, sem confundi-la com o domínio sobre a própria existência.
O que fazemos com o que permanece
Há algo desconcertante em perceber que algumas experiências continuam produzindo efeitos muito depois de terem terminado.
O tempo transforma nossos desejos, nossas convicções e a maneira como compreendemos aquilo que vivemos. Entretanto, nem sempre modifica as consequências do que aconteceu.
Algumas escolhas continuam nos convocando. Certas ausências permanecem. E há perguntas que retornam quando acreditávamos já ter encontrado uma resposta.
Nem tudo pode ser desfeito. Há acontecimentos irreversíveis, responsabilidades que permanecem e experiências cujos efeitos não desaparecem simplesmente porque mudamos nossa maneira de pensar.
Mas reconhecer essas permanências não significa que precisemos continuar ocupando a mesma posição diante delas.
Podemos reconhecer uma perda sem justificá-la. Assumir as consequências de uma escolha sem permanecer identificados com quem éramos quando a fizemos. E descobrir novos interesses sem precisar atribuir ao sofrimento anterior a responsabilidade por sua existência.
Não escolhemos tudo o que herdamos de nossa própria história.
Algumas dessas heranças continuam produzindo efeitos que reconhecemos. Outras permanecem fora do alcance daquilo que conseguimos nomear. Nem sempre sabemos o que ainda nos prende a determinadas experiências ou por que certas questões insistem em retornar.
Seguimos, porém, fazendo escolhas, formulando perguntas, encontrando pessoas, abandonando certezas e descobrindo caminhos que antes não conseguíamos enxergar.
Talvez alguma autoria possível esteja justamente aí: não em escolher o que nos acontece, mas no que fazemos com o que permanece.
Ivy Ferreira
